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Sorriso, MT

De esposa forçada no Afeganistão a campeã de fisiculturismo na Europa

Roya Karimi fugiu do regime talibã e reconstruiu a vida na Noruega; hoje, desafia padrões e disputa o Mundial de Fisiculturismo em Barcelona

“Cada vez que entro numa academia, lembro que um dia não tive o direito de fazer isso”, diz atleta afegã à BBC News Afeganistão.

Sob as luzes do palco, Roya Karimi brilha em um biquíni coberto de cristais.
A pele bronzeada, os músculos definidos e o sorriso confiante não revelam de imediato a trajetória marcada por dor, fuga e superação.

Aos 30 anos, Karimi é uma das principais fisiculturistas da Europa e se prepara para disputar, nesta semana, o Campeonato Mundial de Fisiculturismo, em Barcelona.

“Cada vez que vou à academia, lembro que houve um tempo, no Afeganistão, em que eu nem podia me exercitar livremente”, contou à BBC News Afeganistão.

Difícil imaginar que, há 15 anos, ela era uma adolescente casada à força, mãe ainda menina, vivendo sob as restrições impostas às mulheres pelo regime afegão.


Roya se tornou fisiculturista profissional há apenas 18 meses

 

Uma fuga pela liberdade

Em 2011, Karimi tomou a decisão que mudaria sua vida: fugir do Afeganistão com a mãe e o filho pequeno, deixando o marido para trás.
O destino foi a Noruega, onde começou do zero — aprendeu o idioma, trabalhou para sustentar a família e estudou enfermagem, profissão que exerceu por alguns anos em Oslo.

Foi na academia, no entanto, que ela encontrou um novo propósito.
Ali, o treino virou terapia, e o esforço físico se transformou em símbolo de autoestima e reconstrução da identidade.

Nesse ambiente, conheceu o segundo marido, Kamal Jalaluddin, também afegão e fisiculturista experiente, que se tornou seu principal incentivador.

“Quando um homem apoia uma mulher, coisas incríveis podem acontecer”, afirmou Karimi.


Libertar-se de padrões e enfrentar o preconceito

Há um ano e meio, Roya deixou a carreira na saúde para se dedicar integralmente ao fisiculturismo.
O maior desafio, segundo ela, não foi físico, mas psicológico — aprender a viver em liberdade depois de anos de repressão.

“Nosso maior desafio foi romper regras não escritas, impostas em nome da tradição ou da religião. Quando você decide inovar, precisa se libertar das amarras”, disse.

Mas o sucesso veio acompanhado de ameaças e ofensas nas redes sociais.
Os biquínis e maquiagens que usa nas competições contrastam com as normas impostas às mulheres em seu país de origem — onde, sob o Talebã, elas não podem estudar após os 12 anos, trabalhar ou viajar sozinhas.

Mesmo diante das críticas, Karimi segue inspirando milhares de mulheres.

“As pessoas só veem minha aparência, mas por trás há anos de sofrimento e esforço. Essas conquistas não vieram facilmente.”


O marido de Roya, Kamal Jalaluddin, também é fisiculturista e um de seus maiores apoiadores

 

Do Afeganistão ao pódio mundial

Karimi já conquistou ouro no Stoperiet Open e no prestigiado Norway Classic 2025, o que lhe garantiu vaga no Campeonato Europeu e, agora, no Mundial de Barcelona.

Na plateia, o marido e o filho acompanham cada passo — símbolos da nova vida construída longe da repressão.

“Ver Karimi no palco é a realização de um sonho que construímos juntos”, diz Jalaluddin.

Com serenidade, ela encara o novo desafio:

“Quero fazer história e dedicar esse feito às meninas e mulheres afegãs. Por elas, eu luto.”


Com informações da BBC News Afeganistão

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