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Entre o peixe e o povo: tese revela conflitos e conexões na pesca do pirarucu na Amazônia

Fotografia Divulgação

“Pensa-se muito sobre a Amazônia, mas não se pensa com a Amazônia.” A provocação do antropólogo Rônisson de Oliveira sintetiza o eixo de sua tese de doutorado defendida na Unicamp, onde investiga os efeitos das políticas de conservação ambiental sobre a comunidade em que nasceu: São Paulo do Coraci, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no Amazonas.

O estudo mergulha nos conflitos entre os chamados “manejadores” — pescadores que seguem as regras do plano de manejo do pirarucu — e os “invasores”, moradores que, por diferentes razões, ficaram de fora desse sistema. O cenário se complexifica pela presença de fatores institucionais, religiosos, afetivos e até ecológicos, como o comportamento do próprio pirarucu, tratado pela comunidade como um ser quase humano: pensante, atento e capaz de escapar da pesca.

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Criado no Coraci até os 11 anos, Oliveira reencontra sua origem após duas décadas de estudos, que incluem graduação em história, mestrado em sociologia e experiência como pesquisador do Instituto Mamirauá. Na sua volta como cientista, depara-se com um novo tipo de conflito: o de dentro. Se antes os invasores vinham de fora, hoje o próprio território passou a classificar moradores entre os que participam da conservação e os que não aderiram ao sistema. As razões incluem desde a burocracia até diferenças religiosas.

“Mesmo os chamados invasores têm compromisso com o território. Não querem que ele acabe”, afirma Oliveira, que passou meses na comunidade realizando entrevistas e vivências para captar os fios invisíveis que tecem essa realidade. Esses fios, ou “talas”, inspiraram o conceito de “grafismo da sustentabilidade”, que propõe enxergar as ações de conservação como um trançado construído coletivamente entre Estado, Igreja, moradores e instituições.

Ao longo da tese, o antropólogo mostra como os laços de parentesco, vizinhança e religiosidade convivem com regras, disputas e acusações. Ainda assim, as relações sociais se mantêm firmes, mesmo diante de embates intensos. “Os conflitos existem, mas não rompem os vínculos. As pessoas se reencontram, se perdoam, se precisam.”

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Além do olhar humano, a pesquisa adota uma abordagem multiespécie, reconhecendo o pirarucu como agente central. Segundo Oliveira, o peixe não se comporta de maneira submissa aos desejos humanos. “Ele age pela própria sobrevivência”, afirma. Essa percepção, viva no modo como os moradores falam sobre o peixe, reforça a ideia de que a conservação na Amazônia não pode ser pensada apenas como imposição externa, mas como um saber tecido com — e não apenas sobre — a floresta e suas gentes.

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