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Sobretaxa de Trump à carne brasileira expõe jogo político e pode afetar o próprio consumidor americano

Com rebanho em queda, preços em alta e consumo aquecido, sobretaxa de 50% pode gerar instabilidade e prejudicar até os próprios EUA

Um olhar mais atento aos números da pecuária de corte dos Estados Unidos revela um cenário desafiador: rebanho bovino em declínio, alta nos preços da carne e uma demanda firme por proteína. Nesse contexto, a imposição de uma tarifa de 50% sobre a carne bovina brasileira soa contraditória — e politicamente motivada.

A decisão partiu do presidente Donald Trump, que justificou a medida em tom autoritário e sem rodeios: “Eu posso”. Uma postura que, embora não surpreenda, escancara os riscos de decisões unilaterais com base em motivações políticas, especialmente quando as consequências podem recair sobre o próprio consumidor americano.

Rebanho em queda e preços em alta

O rebanho bovino dos Estados Unidos caiu para 86,7 milhões de cabeças — o menor número em 75 anos. Os preços da carne refletem essa escassez. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), só em junho deste ano a carne moída ficou 10,3% mais cara e o bife subiu 12,4% em relação a junho de 2024. No acumulado de 2025, a alta é de 9%.

A crise na pecuária americana tem múltiplas causas: três anos consecutivos de seca, aumento dos custos de produção e abate excessivo de fêmeas. Hoje, o número de fêmeas de corte é de apenas 27,9 milhões — o menor desde 1961. A estimativa é de que o número de novilhas prenhes tenha caído 1,7%, chegando a 2,92 milhões em 2025.

Embora os Estados Unidos tenham condições de recompor seu rebanho, esse processo não é rápido. Leva pelo menos dois anos e depende de um ambiente de rentabilidade — o que tem se mostrado cada vez mais difícil. Muitos produtores, diante das dificuldades, simplesmente abandonaram a atividade.

Riscos sanitários e dependência de importações

Outra preocupação crescente é o retorno da mosca-da-bicheira, praga erradicada do país em 1966, mas identificada novamente no sul do México em 2024. Como medida preventiva, os EUA suspenderam as importações de gado mexicano e reforçaram ações de controle.

Atualmente, mais de 80% da carne bovina consumida nos Estados Unidos é produzida internamente. Canadá e México respondem por cerca de 6%, e o restante vem de países como Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai — e Brasil.

O Brasil se tornou o segundo maior fornecedor de carne in natura para os EUA, atrás apenas da China. Os americanos compram cortes magros do Brasil para misturá-los com a carne mais marmorizada de seus próprios animais. Nos cinco primeiros meses de 2025, o Brasil respondeu por 26,6% da carne bovina importada pelos Estados Unidos, o equivalente a 5,4% do consumo total do país.

Decisão sem base econômica clara

Ainda que a tarifa de 50% sobre a carne brasileira se confirme, países como Argentina, Uruguai, Austrália e Nova Zelândia não têm escala suficiente para substituir o volume ofertado pelo Brasil. Ou seja, a medida pode não atingir os objetivos esperados e ainda gerar distorções na cadeia produtiva e nos preços ao consumidor — justamente em um país onde o hambúrguer e o bolo de carne moída são quase símbolos nacionais.

Em carta enviada na última sexta-feira (25), 11 senadores democratas criticaram duramente a medida. No documento, classificam a sobretaxa como “claro abuso de poder” e alertam para os danos à economia americana e às relações com o Brasil.

“Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em nome de um amigo é um grave abuso de poder, mina a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região”, diz trecho da carta.

Viés político escancarado

No centro da polêmica está uma motivação abertamente política: o apoio do presidente Trump ao ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que responde a processos no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Trump, no entanto, tem afirmado que a imposição da tarifa é uma forma de pressionar pela suspensão desses processos — o que tem provocado reações tanto no Brasil quanto nos próprios Estados Unidos.

No subtexto, não há urgência econômica, tampouco uma justificativa baseada na defesa do consumidor americano. A medida escancara o uso da política externa como instrumento de proteção pessoal e interfere em decisões soberanas de outro país.

Risco de instabilidade global

Diante do cenário, cresce o temor de que a tarifa imposta à carne brasileira gere efeitos colaterais em cadeia: aumento dos preços nos EUA, desorganização das importações, prejuízos a frigoríficos americanos e instabilidade nos mercados globais. O chamado “jogo perde-perde”.

Enquanto isso, o Brasil acompanha com atenção os desdobramentos. Os últimos dias de julho serão decisivos. Que a energia das autoridades brasileiras esteja voltada a desmontar esse impasse calculadamente construído — e não a alimentar a confusão gerada por quem tenta usar o poder como escudo para seus próprios problemas judiciais.

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