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Sorriso, MT

Trump mira o Brasil com tarifaço político, e o prejuízo pode ser da indústria mato-grossense

Com sobretaxa de 50% prestes a ser imposta, exportações de Mato Grosso e acordos bilaterais com os EUA estão ameaçados. No centro do conflito: ideologia, economia e a soberania brasileira.

A desculpa é política, o impacto é econômico e a resposta, inevitavelmente, terá que ser diplomática. Em linhas gerais, essa é a leitura mais clara sobre a nova ofensiva do ex-presidente americano Donald Trump, que agora escolhe o Brasil como alvo principal em sua cruzada populista e protecionista. A ameaça: aplicar uma tarifa extra de 50% sobre produtos brasileiros, a partir de agosto.

No comércio com os EUA, o Brasil ocupa posição de destaque. Em 2024, os americanos foram nosso segundo principal parceiro comercial, com exportações de US$ 40,3 bilhões (12% do total brasileiro) e importações de US$ 40,6 bilhões (15,5% do total), o que resulta em uma balança favorável aos EUA.

Mato Grosso no meio do fogo cruzado

No caso de Mato Grosso, os reflexos podem ser severos. Desde 1997, o estado movimentou com os EUA US$ 7,6 milhões em exportações e US$ 15,6 milhões em importações. Enviamos para lá carnes, ouro, gordura animal, madeira beneficiada e gelatinas. Em troca, importamos colheitadeiras, tratores, aeronaves, fertilizantes, equipamentos médicos e eletrônicos — ou seja, itens de alto valor agregado e tecnológicos, vitais para a cadeia produtiva mato-grossense.

Além da balança comercial, há impactos potenciais em áreas como ciência, tecnologia, educação e meio ambiente. Todas as universidades públicas do estado, por exemplo, mantêm acordos de intercâmbio com instituições americanas.

Um tarifaço ideológico

O pano de fundo é puramente ideológico. Na carta enviada a Lula, Trump ataca o sistema de justiça brasileiro e critica o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmando, em tom de chantagem:

“Este julgamento não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!”

“Se por algum motivo você decidir aumentar suas tarifas, então, qualquer que seja o número que você escolher para aumentá-las, será adicionado aos 50% que cobramos.”

Trump ignora que a Justiça brasileira é independente, e que a Constituição estabelece os limites e garantias do Estado Democrático de Direito. Ignora também a soberania do país e os pactos de não interferência externa.

O fantasma da submissão

As declarações reacendem lembranças incômodas. Durante a ditadura militar e com apoio americano, o Brasil participou da Operação Condor, uma aliança repressiva entre regimes autoritários do Cone Sul nos anos 1970. Mais recentemente, em 2019, o então presidente Bolsonaro prestou continência à bandeira dos EUA e declarou: “Brasil e Estados Unidos acima de tudo.”

Reciprocidade em debate

Diante do novo impasse, surge no debate político a possibilidade de aplicar a Lei da Reciprocidade, dispositivo legítimo de reação em conflitos comerciais. A última vez que foi usada com vigor foi no episódio conhecido como a “diplomacia dos sapatos”, em 2002. Após o atentado de 11 de Setembro, o chanceler Celso Lafer foi obrigado a tirar os sapatos três vezes nos aeroportos americanos. Em resposta, o Brasil passou a exigir o mesmo rigor de cidadãos norte-americanos.

Na época, o procurador da República em Mato Grosso, José Pedro Taques, entrou com uma ação exigindo o tratamento igualitário. O juiz federal Julier Sebastião da Silva acolheu a tese e determinou medidas de controle contra os americanos com base no direito internacional público.

Krugman: tarifas como chantagem

No artigo “Programa de proteção de ditadores de Trump”, o Nobel de Economia Paul Krugman criticou duramente a ameaça tarifária, classificando a medida como “megalomaníaca e perversa”. Ele defende que o Brasil responda com reciprocidade, para evitar que o protecionismo sirva de ferramenta para intimidações políticas.

O momento exige firmeza

A situação é delicada e exige maturidade institucional. O Brasil deve defender seu comércio, sua economia e sua soberania, utilizando o diálogo diplomático como primeira via — mas sem abrir mão de medidas legais se a chantagem se confirmar.

Não estamos num folhetim de televisão, onde personagens podem se declarar donos do mundo. A realidade exige que valores como liberdade, respeito entre nações e dignidade nacional sejam preservados acima de ideologias ou interesses pessoais.

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