Estímulos presenciais são fundamentais para garantir interação, vínculo e desenvolvimento pleno da comunicação infantil
Na era digital, cresce o número de crianças que começam a falar cedo, mas apresentam dificuldades para manter conversas, compreender emoções e interagir socialmente. Segundo Mariana Ferraz Conti Uvo, professora do curso de Fonoaudiologia da UniCesumar, o fenômeno reflete o impacto de uma rotina cada vez mais mediada por telas e com menos interações presenciais.
“A fala e a comunicação são habilidades distintas. Muitas crianças conseguem produzir palavras ou frases, mas têm dificuldade em usá-las de forma funcional, direcionada ou interativa. Isso está diretamente relacionado à menor qualidade na interação verbal, provocada pelo tempo excessivo de tela e pela redução de estímulos presenciais”, afirma.
Pesquisas recentes reforçam essa preocupação. A revisão sistemática “The Relationship between Language and Technology: How Screen Time Affects Language Development in Early Life”, publicada na revista Brain Sciences, confirma o vínculo entre uso precoce de telas e atrasos no desenvolvimento da linguagem.
Outro estudo realizado no Ceará e divulgado pela revista BMC Public Health, “Screen time and early childhood development in Ceará, Brazil”, identificou que crianças de até cinco anos expostas por longos períodos às telas apresentaram escores mais baixos em comunicação, resolução de problemas e habilidades socioemocionais.
Já a pesquisa internacional publicada na JAMA Pediatrics, “Screen Time at Age 1 Year and Communication and Problem-Solving Developmental Delay at 2 and 4 Years”, destaca que a presença de um adulto mediando conteúdos educativos pode reduzir os impactos negativos — diferente da exposição passiva, que tende a agravar os déficits.
“A criança fala, mas não se comunica”
Segundo a especialista, essa frase significa que, embora a criança tenha vocabulário básico, falta funcionalidade na comunicação.
“Na prática, quer dizer que a criança pode até produzir palavras, mas não inicia conversas, não mantém um tópico, não faz perguntas e não ajusta sua fala ao contexto ou ao interlocutor. Falta o aspecto pragmático e interativo”, explica Mariana.
Entre os sinais de alerta apontados pela professora estão:
-
Ausência de palavras significativas até os dois anos;
-
Dificuldade em interagir durante brincadeiras ou rotinas;
-
Repetição mecânica de palavras ou sons, sem engajamento espontâneo;
-
Pouco uso de gestos como apontar ou manter contato visual;
-
Regressão de habilidades comunicativas — caso que exige avaliação urgente.
Como prevenir atrasos
Apesar das dificuldades impostas pelo mundo conectado, a solução é acessível: interação humana de qualidade.
Atividades como narrar ações do dia a dia, conversar durante as refeições, ler histórias em conjunto e brincar de “faz de conta” ajudam a fortalecer vínculos e ampliar habilidades comunicativas.
Para Mariana, não basta apenas reduzir o tempo de tela, é necessário transformar o uso da tecnologia em oportunidades de troca.
“Supervisionar o conteúdo consumido e conversar sobre o que aparece na tela são estratégias essenciais”, orienta.
Ela reforça também a existência das chamadas “janelas sensíveis”, períodos nos primeiros anos de vida em que o cérebro está mais receptivo ao desenvolvimento de linguagem e habilidades sociais. Quanto mais cedo os estímulos adequados forem oferecidos, melhores os resultados ao longo da vida.
Interação humana ainda é o caminho
“Na era digital, mais do que nunca, precisamos resgatar a importância da interação humana para o desenvolvimento saudável das crianças. É no contato direto, no olhar, na troca de turnos durante uma conversa que a linguagem ganha significado e a comunicação se torna uma ferramenta para compreender e se conectar com o mundo”, conclui a docente da UniCesumar.
✍️ Da redação do Sorriso News MT
🟦 Sorriso News MT — Sua fonte de notícia, sua conexão com a verdade.
📘 Facebook: @sorrisonewsmt | 📸 Instagram: @sorrisonewsoficial | 💬 WhatsApp: (66) 99934-4590