A elevada remuneração das aplicações ligadas à Selic e ao CDI não elimina os riscos de manter todo o patrimônio concentrado no Brasil. Essa é uma das conclusões de um estudo desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef).
O levantamento “Ir para o exterior é fundamental: por que a Selic alta não protege totalmente o patrimônio brasileiro” analisa dados de 2000 a 2026 e avalia os efeitos da inflação, do câmbio e da concentração dos investimentos em uma única economia e moeda.
Os pesquisadores Claudia Emiko Yoshinaga, Francisco de Castro Junior, Ricardo Ratner Rochman e William Eid Junior destacam que aplicações atreladas ao CDI e à Selic apresentam baixa volatilidade nominal e elevada liquidez em reais. Essas características, porém, não eliminam riscos relacionados à inflação, ao reinvestimento, ao crédito e à concentração patrimonial.
CDI acumula ganho, mas inflação reduz retorno real
Um dos exemplos apresentados pelo estudo considera uma aplicação hipotética de R$ 100 em CDI desde janeiro de 2000.
Até julho de 2026, o investimento teria alcançado aproximadamente R$ 2.108, considerando um retorno nominal acumulado de 2.008%. No mesmo período, entretanto, a inflação acumulada foi de 382%.
Quando o efeito da inflação é descontado, o valor corresponde a aproximadamente R$ 437 em preços de janeiro de 2000, representando um retorno real acumulado de cerca de 337%.
A análise mostra, portanto, a diferença entre rentabilidade nominal e preservação do poder de compra. Uma aplicação pode apresentar forte valorização em reais e, ainda assim, ter um resultado significativamente diferente quando ajustada pela inflação.
Dólar muda a perspectiva sobre o patrimônio
O estudo também utiliza o dólar como uma segunda referência para avaliar o desempenho do patrimônio.
Segundo os pesquisadores, os R$ 100 aplicados em CDI desde dezembro de 1999 chegaram a aproximadamente R$ 2.108 em julho de 2026. Quando o resultado é convertido para dólar, o montante equivale a cerca de US$ 743.
Em períodos mais recentes, a diferença também aparece. Desde dezembro de 2004, o CDI acumulou retorno de 799% em reais e 370% em dólar. Desde dezembro de 2014, os resultados foram de 199% e 56%, respectivamente.
Para os pesquisadores, a comparação em dólar é relevante porque parte do consumo e das necessidades financeiras dos brasileiros está relacionada a bens, serviços e compromissos com preços internacionais.
Diversificar não significa apenas ter vários investimentos
Outro ponto destacado pela pesquisa é que possuir diferentes produtos financeiros não significa, necessariamente, ter uma carteira diversificada.
Um investidor pode ter ações, fundos e renda fixa diferentes, por exemplo, mas continuar exposto aos mesmos fatores de risco caso todos estejam concentrados na economia brasileira e em reais.
Segundo o estudo, a diversificação efetiva depende da combinação de fontes diferentes de risco e retorno, incluindo ativos relacionados a outras economias, moedas e emissores.
A pesquisa também observa que simplesmente transferir uma carteira para o exterior não garante diversificação. A composição dos investimentos precisa considerar as características do novo mercado e o papel que cada ativo desempenha dentro da estratégia.
Estudo defende diversificação internacional
Na avaliação apresentada pelos pesquisadores, aplicações vinculadas ao CDI podem cumprir funções importantes de liquidez e composição de carteiras, mas não eliminam os riscos associados à concentração do patrimônio em uma única economia.
O estudo defende que a internacionalização de parte dos investimentos pode reduzir essa concentração, ao ampliar a exposição a diferentes moedas, economias e emissores.
A pesquisa também ressalta que a diversificação não deveria depender exclusivamente da tentativa de acertar o melhor momento para investir no exterior ou de prever movimentos do câmbio. A proposta analisada pelos autores é baseada em disciplina e constância na construção da carteira.