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Sorriso, MT

A lista que nunca zera.

A gente se acostuma tanto a viver ocupado que começa a confundir descanso com atraso e uma lista cheia com a prova de que está fazendo alguma coisa da vida.

Abri o aplicativo de notas outra vez hoje de manhã, só para conferir uma coisa rápida, e me deparei com a lista de tarefas crescendo na minha frente feito planta invasora. Marquei dois itens como concluídos, aquela sensação boa de risco no meio da frase, e no espaço de trinta segundos já tinha digitado três novos. A lista, que devia estar encolhendo depois de dois itens resolvidos, terminou o dia maior do que começou. Isso não é exceção. É o comportamento padrão dela há anos.

Eu costumava achar que essa era uma fase, um período corrido que ia passar assim que eu desse conta de umas coisas específicas. Hoje já não finjo mais essa esperança. A lista não zera nunca porque ela não foi desenhada para zerar. Toda vez que eu tacho um item, a vida oferece educadamente dois substitutos, como se existisse um estoque infinito de pendências esperando vaga. E o pior é perceber que uma parte de mim se acostumou tanto com essa lista cheia que talvez ela nem funcione mais só como registro de tarefa. Virou também um jeito de provar, para mim mesmo, que estou fazendo alguma coisa da vida.

Reparei nisso outro dia enquanto conversava com um amigo que tinha acabado de voltar de férias. Ele contou, meio sem graça, que passou os primeiros dois dias inteiros ansioso, sem lista para seguir, como se descanso fosse um território estrangeiro onde ele não sabia se comportar direito. Eu ri na hora, reconhecendo a cena, porque comigo é igual. Lista vazia me dá uma sensação de alarme falso, tipo esquecimento grave de alguma coisa, quando na verdade é só ausência mesmo, sem pegadinha nenhuma.

Demorei para perceber que o problema nunca foi a quantidade de itens. Foi a expectativa de que um dia ela vai chegar a zero e aí sim eu posso descansar de consciência limpa. Essa linha de chegada não existe, e continuar correndo atrás dela só garante que eu vou sempre me sentir atrasado em relação a uma meta inventada. Gente morta não tem lista de tarefas, e essa frase seca, de tão óbvia, foi a que mais me acalmou nos últimos tempos.

Então, hoje, resolvi encarar um pouco diferente: risquei os dois itens de manhã, deixei os três novos aparecerem sem culpa, e fechei o aplicativo sem esperar por aquele zero que nunca chegou de verdade em nenhuma fase da minha vida. A lista continua lá, orgulhosa da própria imortalidade. Eu, pelo menos por hoje, decidi não brigar com ela antes do café esfriar.

Enrico Pierro é escritor e colunista, autor de Duas da Manhã. Leia outras crônicas em enricopierro.com.br.

 

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