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Bets já levam apostadores a cortar gastos básicos e deixar contas sem pagar

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Bets já levam apostadores a cortar gastos básicos e deixar contas sem pagar

O avanço das apostas esportivas e dos jogos de azar online, conhecidos como bets, começa a produzir efeitos cada vez mais significativos sobre o orçamento das famílias brasileiras. Pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas, aponta que 50 milhões de pessoas nas capitais já apostam, um aumento de 10,5 milhões em relação ao levantamento de 2025.

O estudo mostra que os apostadores representam 36% dos consumidores digitais brasileiros e revela aumento do valor destinado mensalmente aos jogos. O gasto médio chegou a R$ 213 por mês, enquanto entre consumidores das classes A e B alcança R$ 314.

A pesquisa também indica que 23% dos apostadores já destinaram às bets valores que comprometeram a própria renda ou o bem-estar financeiro.

Apostadores deixam de pagar contas para jogar
O impacto das apostas aparece diretamente no consumo das famílias. Segundo o levantamento, 43% dos apostadores afirmam já ter deixado de comprar ou pagar algum item para destinar dinheiro aos jogos.

Entre os gastos sacrificados estão internet, citada por 15%; contas básicas de água, luz e telefone, por 13%; passeios em família, por 12%; vestuário, também por 12%; e alimentação fora de casa, mencionada por 12%.

A inadimplência também aparece entre os efeitos apontados pela pesquisa. Um em cada quatro apostadores, ou 25%, afirma já ter deixado de pagar alguma conta para apostar. Outros 24% dizem ter tido o nome negativado em razão de gastos com jogos online. Desse grupo, 11% continuam com o nome negativado.

O levantamento mostra ainda que 28% dos apostadores já recorreram ou consideraram recorrer a medidas para conseguir dinheiro para jogar. Entre as situações citadas estão pegar dinheiro emprestado, apontado por 12%; vender bens próprios ou da família sem consentimento, por 8%; e utilizar cartões de terceiros sem autorização, também por 8%.

Frequência elevada e dificuldade para parar
A frequência com que os brasileiros acessam as plataformas também chama atenção. De acordo com a pesquisa, 62% apostam diariamente ou semanalmente, sendo que 11% afirmam jogar todos os dias. O Pix é o principal meio de pagamento utilizado, citado por 78% dos apostadores.

A dificuldade para interromper o comportamento também aparece nos dados: 37% afirmam já ter tentado parar ou reduzir a frequência das apostas, mas não conseguiram.

Os impactos ultrapassam a questão financeira. Ao todo, 34% dos apostadores relatam consequências na vida pessoal. Entre os problemas citados estão ansiedade, depressão e insônia, mencionadas por 11%; conflitos familiares relacionados à ausência, por 9%; endividamento, por 8%; e advertências, suspensões ou demissões no trabalho, também por 8%.

Apostas também chegam aos adolescentes
O levantamento identificou ainda reflexos entre famílias com filhos adolescentes. Entre os entrevistados que têm filhos de 12 a 18 anos, 10% afirmam que os jovens estão envolvidos com bets.

Entre esses pais, 70% percebem algum prejuízo na vida dos filhos. Os principais problemas apontados são sinais de vício, mencionados por 26%; endividamento, por 24%; e uso de dinheiro da família sem autorização, por 14%.

Além disso, 49% dos apostadores dizem conhecer alguém próximo que já enfrentou problemas relacionados aos jogos online.

Apesar dos impactos, a busca por ajuda ainda é limitada. A procura por algum tipo de apoio aumentou de 21% para 30%, principalmente entre parentes, amigos e grupos de apoio relacionados ao vício em jogos. Ainda assim, 69% dos apostadores que enfrentaram dificuldades não buscaram suporte especializado.

Maioria defende maior fiscalização
A pesquisa também ouviu os consumidores sobre a regulamentação das apostas. Para 39% dos entrevistados, os jogos online deveriam ser totalmente proibidos. Outros 53% defendem a manutenção das apostas, desde que exista maior regulação e fiscalização, sendo que 46% mencionam especificamente a necessidade de fiscalização rígida.

Entre as medidas consideradas mais eficazes pelos entrevistados estão campanhas educativas sobre os riscos do vício, citadas por 44%; proibição de propagandas estreladas por famosos e influenciadores, por 43%; e restrição de ações de marketing direcionadas a jovens e adolescentes, por 36%.

A presença de celebridades, atletas, influenciadores e artistas na publicidade das plataformas é vista negativamente por 66% dos entrevistados.

CNDL alerta para impactos sociais e econômicos
Para o presidente da CNDL, José César da Costa, o crescimento das apostas online deixou de representar apenas uma modalidade de entretenimento e passou a produzir efeitos sobre as famílias.

“O avanço vertiginoso das apostas online no Brasil deixou de ser apenas uma questão de entretenimento digital e se transformou em uma grave crise de saúde pública e de desestruturação social”, afirma.

Segundo ele, os impactos sobre a renda, os conflitos familiares e a rotina de trabalho indicam a necessidade de ações de prevenção, atendimento e regulação. A avaliação é de que políticas públicas e campanhas educativas podem contribuir para reduzir os danos associados às apostas.

Na avaliação do presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Júnior, o problema também tem reflexos sobre o consumo e a economia.

“Quando uma parcela significativa da população recorre a economias essenciais, deixa de honrar compromissos básicos de subsistência ou acumula restrições de crédito para sustentar o hábito de jogar, o resultado direto é a escalada da inadimplência e o endividamento crônico”, afirma.

Para Pellizzaro, a transferência de recursos destinados ao consumo e ao pagamento de despesas essenciais para as plataformas de apostas reduz o poder de compra das famílias e pode afetar a dinâmica do comércio.

Metodologia
A pesquisa ouviu homens e mulheres com 18 anos ou mais, de todas as classes econômicas, que realizaram compras pela internet nos 12 meses anteriores ao levantamento.

Na primeira etapa, foram realizados 939 contatos para identificar o percentual de pessoas que haviam comprado pela internet no período. Na segunda fase, 800 entrevistados que fizeram compras online continuaram respondendo ao questionário.

A pesquisa quantitativa foi realizada pela internet e posteriormente ponderada por sexo, idade, estado e renda. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais no primeiro levantamento e de 3,5 pontos percentuais na segunda etapa, com nível de confiança de 95%.

A coleta dos dados ocorreu entre 25 de maio e 4 de junho de 2026.

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