As compras por impulso pela internet estão pesando no bolso dos brasileiros. Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), realizada em parceria com a Offerwise, revela que 69% dos consumidores online nas capitais brasileiras admitem fazer compras não planejadas. Além disso, 41% afirmam já ter gastado mais do que podiam nessas aquisições.
O levantamento aponta que o comportamento está se tornando mais frequente. Em 2025, 10% dos entrevistados diziam comprar por impulso quase sempre. Em 2026, o percentual subiu para 14%. Entre aqueles que afirmam agir dessa maneira frequentemente, a proporção passou de 15% para 19%.
Somados, os dois grupos representam 33% dos consumidores, aproximadamente um terço dos entrevistados que compram pela internet.
O cenário preocupa diante do comprometimento da renda das famílias e dos custos do crédito. Compras aparentemente pequenas, quando realizadas repetidamente ou parceladas sem planejamento, podem reduzir o dinheiro disponível para despesas essenciais e aumentar o risco de inadimplência.
“Os resultados chamam a atenção em um ambiente econômico no qual o custo elevado do crédito e o comprometimento da renda dificultam a organização financeira”, destaca o presidente da CNDL, José César da Costa.
Segundo ele, até consumidores que mantêm as contas em dia podem enfrentar dificuldades para pagar compromissos financeiros quando acumulam despesas não previstas no orçamento.
Compras por impulso já provocam dívidas e atrasos nas contas
O impacto das compras não planejadas aparece diretamente nas contas dos consumidores. De acordo com a pesquisa, 36% das pessoas que compram por impulso pela internet já contraíram dívidas ou atrasaram pagamentos em consequência dessas aquisições.
Entre os jovens de 18 a 28 anos, o percentual é ainda maior: 45%.
O cartão de crédito é o compromisso financeiro mais afetado, citado por 15% dos entrevistados. Na sequência aparecem outras contas, com 11%; serviços de internet, com 8%; telefone, com 5%; e energia elétrica, também com 5%.
Os dados mostram como o consumo sem planejamento pode comprometer o pagamento de despesas importantes. O problema tende a se agravar quando diferentes compras são parceladas simultaneamente, reduzindo a renda disponível nos meses seguintes.
Por isso, acompanhar os gastos no cartão de crédito e avaliar a capacidade de pagamento antes de assumir novas parcelas são medidas importantes para evitar o endividamento.
Promoções, frete grátis e redes sociais estimulam o consumo
As promoções são o principal incentivo às compras por impulso na internet. O levantamento da CNDL e do SPC Brasil mostra que 57% dos consumidores que compram impulsivamente apontam as ofertas promocionais como um dos estímulos para adquirir produtos sem planejamento.
O frete grátis aparece em segundo lugar, citado por 48% dos entrevistados. Também influenciam esse comportamento os descontos com tempo limitado, mencionados por 27%; as ofertas de novos produtos e lançamentos, por 26%; e as avaliações positivas de outros consumidores, por 20%.
As redes sociais também exercem influência significativa nas decisões de consumo.
Segundo a pesquisa, 58% dos consumidores que compram por impulso pela internet já adquiriram algum produto depois de assistir a vídeos no Instagram, TikTok ou YouTube. Desse total, 17% afirmam que fazem isso frequentemente, enquanto 41% dizem que a situação já aconteceu algumas vezes.
Outros 18% admitem que acabam comprando produtos simplesmente porque encontram algo de que gostam enquanto navegam pelas redes sociais.
A combinação de publicidade personalizada, recomendações de produtos, descontos por tempo limitado e facilidades de pagamento pode encurtar o intervalo entre o desejo de comprar e a efetivação da compra.
Nesse ambiente, o consumidor corre o risco de priorizar uma oferta aparentemente vantajosa sem avaliar se realmente precisa do produto ou se tem condições de pagar por ele.
Roupas, delivery e cosméticos lideram as compras não planejadas
Entre os produtos e serviços mais adquiridos por impulso pela internet estão roupas, sapatos e acessórios, citados por 37% dos entrevistados.
Na sequência aparecem comidas e bebidas por delivery, com 32%; cosméticos, perfumes e produtos de beleza, com 30%; itens para casa, com 28%; e eletrônicos e produtos de informática, com 15%.
A variedade de ofertas disponíveis e a facilidade para concluir pedidos pelo celular contribuem para tornar o consumo imediato parte da rotina de muitos brasileiros.
Entretanto, o desconto nem sempre representa economia. Quando a compra não é necessária ou compromete o orçamento, a oferta pode resultar em uma despesa adicional e até em uma dívida.
O presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro, ressalta a importância de controlar os gastos e estabelecer prioridades financeiras, especialmente em um cenário no qual muitas famílias enfrentam dificuldades para pagar contas e renegociar compromissos.
Emoções também influenciam as compras por impulso
O comportamento de compra não é motivado apenas por promoções e oportunidades de desconto. A pesquisa também identificou fatores emocionais que podem levar os consumidores a gastar sem planejamento.
A necessidade de recompensa aparece entre os principais gatilhos, citada por 18% dos entrevistados. Em seguida estão os momentos de felicidade intensa ou comemoração, com 17%; o desejo de sentir poder, pertencimento ou prazer, com 12%; o tédio ou a sensação de vazio, também com 12%; e a baixa autoestima, com 11%.
A solidão ganhou espaço entre os fatores associados às compras não planejadas. O percentual de consumidores que apontaram essa motivação passou de 5%, em 2025, para 9%, em 2026.
A tristeza apresentou movimento semelhante, subindo de 6% para 9% no período.
Apesar da influência das emoções, 43% dos consumidores que compram por impulso afirmam nunca ter parado para refletir sobre os sentimentos que motivam suas decisões de consumo.
Os efeitos podem continuar mesmo depois que o pedido é concluído. Segundo o levantamento, 59% dos entrevistados relatam sentimentos negativos após compras por impulso.
Entre as reações mencionadas estão arrependimento, citado por 17%; incômodo pela falta de autocontrole, por 15%; ansiedade para realizar novas compras, por 12%; e culpa, por 11%. Outros 10% afirmam sentir medo de não conseguir pagar as dívidas assumidas.
Os resultados indicam que as consequências do consumo impulsivo vão além do orçamento e também podem afetar a relação das pessoas com o dinheiro e a percepção sobre os próprios hábitos de compra.
Como evitar compras por impulso e proteger o orçamento
O planejamento financeiro é uma das principais ferramentas para reduzir as compras desnecessárias e evitar o endividamento. A orientação é estabelecer limites para os gastos, acompanhar as despesas e avaliar cada aquisição antes de concluir o pagamento.
Confira algumas medidas que podem ajudar:
Espere antes de comprar: adiar a decisão por algumas horas ou dias ajuda a avaliar se o produto é realmente necessário ou se o desejo é momentâneo.
Defina um limite de gastos: estabeleça quanto pode ser destinado a compras não essenciais sem comprometer as despesas fixas.
Avalie o custo total das parcelas: uma prestação aparentemente pequena pode pesar no orçamento quando somada a outros compromissos.
Evite comprar apenas por causa de descontos: compare preços e verifique se a oferta representa uma economia real.
Controle os gastos no cartão de crédito: acompanhe as compras realizadas e considere as parcelas que ainda serão cobradas nos próximos meses.
Reduza os estímulos ao consumo: desative notificações promocionais e evite acompanhar ofertas quando não houver intenção de comprar.
Identifique os gatilhos emocionais: observar se tristeza, tédio ou ansiedade influenciam as decisões pode ajudar a interromper o comportamento impulsivo.
Priorize as despesas essenciais: alimentação, moradia, energia, água e outros compromissos básicos devem vir antes das compras não planejadas.
Quem já enfrenta dificuldades financeiras deve priorizar a reorganização do orçamento, identificar as dívidas existentes e evitar assumir novos compromissos que prejudiquem a recuperação financeira.
Em um ambiente digital que facilita as compras e mantém os consumidores expostos a ofertas constantes, desenvolver hábitos de consumo conscientes é fundamental para preservar a renda e reduzir o risco de inadimplência.